segunda-feira, 24 de julho de 2017

A língua como elo de uma nação: a Rússia e o mundo russo

(Camiseta com os símbolo bizantino da águia bicéfala, o mapa da Rússia com as bandeira nacional e o nome do país escrito em russo: símbolos unificadores da nação.) 

          No último dia 20 de julho, o presidente da Rússia Vladimir Putin fez um pronunciamento no Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos na cidade de Yoshkar-Ola, capital da pequena república de Mari El, sobre as relações interétnicas no país. A república possui em torno de 700 mil habitantes, sendo em torno de 47% de russos e 43% da etnia mari, cuja descendência pertence aos povo fino-úgricos, originários do norte e leste europeu e que possuem interação com a etnia russa.

(Putin na reunião do Conselho Presidencial sobre Assuntos Interétnicos, em Yoshkar-Ola, 20 de julho de 2017.)

          De acordo com o analista americano Paul A. Goble, especialista em questões étnicas e religiosas da Eurásia, em seu discurso Putin afirmou que todos os não-russos étnicos deveriam aprender a língua russa, ao passo que os russos não étnicos não deveriam ser obrigados a aprender a língua das repúblicas em que habitam e que são caracterizadas culturalmente pelo grupo étnico predominante. Goble adota um postura crítica a este discurso afirmando que ele aplica dois pesos e duas medidas no que se refere ao status étnicos dos grupos que compõe a Rússia, privilegiando os russos étnicos em detrimento das demais etnias e estimulando as paixões nacionais de ambos os lados.

          Golbe transcreve o comentário de Putin, que diz: “A língua russa para nós é uma língua estatal, a língua da comunicação interétnica, e ela não pode ser substituída por nada. É o esqueleto espiritual natural de todo o nosso país multinacional. Todos devem saber isto... As línguas dos povos da Rússia são também o aspecto inalienável da cultura única dos povos da Rússia". O discurso é claro: a Rússia possui uma cultura peculiar, única, cuja unidade multinacional é tecida pela língua, o centro, a estrutura principal de sua cultura. Segundo Putin, as línguas não russas não são propriedade do Estado como é a língua russa, mas pertence aos seus respectivos povos. A Constituição garante o estudo delas, mas de forma voluntária, e não obrigatória como a língua pátria. "É inadmissível forçar alguém a estudar uma língua que não e sua língua nativa", disse o presidente. A exceção cabe ao russo, obrigatório em todo o país.

          Segundo Golbe, Putin tratou das culturas não russas sob um ótica do turismo e eventos públicos, de forma que os russos pudessem conhecer outras culturas, destacando que o desenvolvimento e a popularização destas regiões é de extrema importância dado que a Rússia "é única na multiplicidade de sua natureza e tradições culturais". Acontece que o presidente fez referência unicamente sobre as comunidades nacionais extraterritoriais, os municípios e aos oficiais regionais, mas não às etnias que possuem repúblicas próprias com leis próprias conforme sua cultura. Na visão de Golbe, isto é um "estrondoso silêncio" dada a importância dessas regiões na formação e estrutura do país.

          A ênfase na peculiaridade da cultura russa é uma narrativa recorrente nos discursos de Putin, que normalmente evoca questões de ordem espiritual e civilizacional quando aborda este tema. Fica claro no seu discurso do dia 20 que a língua russa é o elo que une toda a nação multiétnica, uma cultura prevalecente.

(São Paulo, maior cidade do Brasil e das Américas, com 11 milhões de habitantes: palco da pesquisa de Svetlana Ruseishvili, a pesquisadora considerou como russos os habitantes da cidade com base na unidade linguística.)

          Esta visão de Putin pode ser melhor compreendida com a distinção dos papéis de cada grupo nacional dentro da Rússia, construída historicamente como um império multinacional. Em sua tese de doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo Ser russo em São Paulo, a russa Svetlana Ruseishvili, radicada no Brasil, procura responder  à pergunta "o que é ser russo?" para balizar sua abordagem de campo. Ruseishvili lembra que a Rússia deve ser compreendida segundo a natureza imperialista de seu Estado, onde as dimensões étnicas e cívicas de ser russo não estão totalmente separadas (todo o russo étnico é cidadão russo, bem como todo o não russo étnico que vive dentro das fronteiras do país é também um cidadão russo).

          Ruseishvili explica que na medida em que o Império se expandia a partir do século XVI, diversas etnias foram incorporadas ao seu domínio, criando diferentes categorias de cidadãos segundo sua identidade étnica. A assimilação obedecia critérios geográficos e culturais, e os povos "com pouco grau de cidadania" recebiam um status administrativo e político inferior. Diz a autora:
"A preocupação de um Império em organizar seus territórios conquistados de modo segregado, conferindo-se a alguns peso cultural e político maior que a outros, criou uma concepção de pertencimento étnico como atributo inerente a cada indivíduo, sendo ele imutável e herdado" (p. 179)
          A socióloga utiliza-se da ideia de língua comum para explicar o chamado "mundo russo". Ao compreender o mundo russo através da ideia de língua comum, o termo adquire uma concepção que é similar à da Academia russa, conceituado como: 
"...um espaço cultural transnacional cujo elemento principal é a língua russa. Sem dúvida, a dimensão ideológica desse conceito não pode ser ignorada: mundo russo é antes de tudo um mundo de colonização russa, com sua longa história de 'russificação' dos novos territórios como a principal estratégia de assimilação cultural." (p. 182)
E continua:
"Contudo, o resultado dessas políticas se transformou um concepção de nacionalidade étnica que se baseia, sobretudo, no pertencimento linguístico. Dessa maneira, a língua russa, uma língua de difícil acesso para os não nativos, tornou-se denominador comum universal para um país multilinguístico e multinacional como a Rússia. Parafraseando Elias, a língua russa se modificou efetivamente em uma instituição que permite falar da existência de um habitus nacional na Rússia." (p. 182)  
          Antes desta parte, Ruseishvili reproduz passagens escritas pelo sociólogo alemão Norbert Elias, para quem a consciência nacional, a personalidade de um povo, "cristaliza-se em instituições que têm a responsabilidade de assegurar" que várias pessoas diferentes adquiram o mesmo habitus nacional. Para ele, a língua comum é o exemplo "mais imediato" deste habitus.

          Foi com base na uso comum da língua que a socióloga russa definiu quem são os russos e seus descendentes em São Paulo. A língua é "o elemento central de compreensão daquilo que chamei aqui de 'ser russo'", fator delimitador das fronteiras deste grupo social capaz de dar-lhe coesão interna e  que permite que pessoas de diferentes etnias se apresentem como russos sem expor sua identidade original. Desta forma, Ruseishvili delimitou sua pesquisa de campo onde, além de russos étnicos, abordou judeus, ucranianos, bessarábios e lituanos todos como russos.

          Para os russos, portanto, é a língua russa o habitus nacional e o elemento da cultura que se manifesta de forma mais direta nas instituições nacionais. Neste caso, a escola seria o principal veículo e divulgador da língua. Goble não fala da escola no discurso de Putin, mas isto pode ser subentendido devido ao seu papel como propagador de valores cívicos e nacionais. Para o historiador português Fernando Catroga, é a escola a responsável por inculcadora de valores cívicos nas pessoas: 

"Ao apelar para a necessidade de o ensino ministrar uma educação moral e social comum, ele exigia a partilha de ideias e valores comuns acerca do mundo e da vida (...) mundividência que a ação ativa do poder político (...) teria de tornar hegemônica para se poder 'fazer' cidadãos patriotas e racionalistas. O que, como se viu, dispensava o papel socializador, se não de uma religião civil (...), pelo menos uma espécie de 'religião laica' ou 'cívica'" (p. 302-303)
(Vista do Kremlin: na Rússia o Estado tem forte presença na sociedade, inclusive como promotor da cultura russa ao longo dos séculos, como a língua pátria.)

          A citação de Catroga ocorre dentro da análise que o ele faz da relação Igreja-Estado numa perspectiva histórica para destacar o papel da escola na propagação de valores. Isto é particularmente relevante na Rússia devido ao forte papel do Estado na vida social, onde até mesmo a Igreja esteve sob sua influência direta. Por séculos a autoridade política esteve acima das autoridades religiosas, com diversos momentos de tensão. A Igreja esteve submissa ao poder político não apenas durante o período soviético, como relata Ruseishvili, mas durante todo o período desde o reinado de Pedro, o Grande. Segundo o historiador britânico Benedict H. Sumner, em 1721 o imperador aboliu o Patriarcado da Igreja Ortodoxa Russa e o substituiu por uma junta administrativa, o Santo Sínodo. O imperador Alexandre I foi mais longe: em 1824 nomeou um procurador chefe (na prática um ministro de Estado) para dirigir o Sínodo. Esta situação perdurou até a Revolução Russa em 1917. Com a restauração do Patriarcado em 1918, porém, veio sua submissão a um órgão vinculado diretamente ao PCUS e a massiva perseguição antirreligiosa, particularmente em 1929 e 1937. Hoje, mesmo que Igreja e Estado sejam oficialmente separados, na prática há uma relação de dependência e apoio mútuo: a Igreja está atrelada ao Estado e deste depende para seu reavivamento e manutenção (a reconstrução de igrejas e monastérios destruídos durante o período soviético foi apoiada e financiada pelo Kremlin e os novo oligarcas); por outro lado e o Estado busca apoio e legitimidade na Igreja como forma de unir o país e exaltar o sentimento nacional.

          Disto podemos concluir que o Estado russo não é apenas um administrador das questões públicas, mas acima de tudo uma estrutura que procura abraçar toda a sociedade e, portanto, definir o papel e os valores que ela deve carregar. Observando a história do país descrita por Sumner, na medida em que o Estado russo se expande, expande também sua atuação nos diversos domínios da vida pública, particularmente a partir da gestão de Pedro, o Grande. Na Rússia, Estado e sociedade caminham juntos ou, para ser mais exato, o Estado caminha acima da sociedade e mesmo da Igreja.

          Quando Golbe afirma que Putin não fez referência às repúblicas não russas, mas apenas às nações sem território próprio, fica subentendido que a prioridade da língua russa sobre as demais vai além da escola e abraça todo o aparato estatal. Isto não significa que estes grupos não possuam um aparelho estatal próprio capaz de propagar a língua materna, e sim que estas línguas têm importância secundária frente ao projeto nacional de promoção da língua pátria da Rússia

          Não pretendo aqui qualificar o que Putin disse, mas concluir esta breve análise afirmando que para o que chamamos de Rússia, a etnia russa não prevalece sobre as demais apenas em número (equivalente a 82% da população do país), mas também formalmente através da promoção oficial de sua língua materna. Desta forma o Estado age para promover a unidade nacional e territorial através de uma cultura específica, mas sem necessariamente depreciar outras culturas, dado que legalmente não há proibição do ensino das línguas de etnias não russas.


(Mapa dos grupos étnicos da antiga URSS: a língua materna geralmente acompanha os grupos étnicos correspondentes. A língua russa - cujo grupo étnico aparece em vermelho - é a mais difundida na região, e vai além das fronteiras étnicas e nacionais da Rússia atual.)

          Já a evocação do "mundo russo" conforme contornos étnicos e linguísticos como vetor da política externa de Moscou é uma preocupação para vizinhos como Ucrânia, Geórgia e Moldávia, que possuem presença militar da Rússia, bem como para outros países da antiga URSS, que assistem à "multiplicação" de cidadãos russos através da concessão de cidadania aos seus habitantes. Desta forma o mundo russo se amplia legalmente e Moscou passa a reivindicar o direito sobre estas populações. Mas este já é outro problema.

domingo, 11 de junho de 2017

Russia's attempt to influence the course of the United States

(Michael Flynn, Donald Trump, Jeff Sessions, Vladimir Putin e Sergei Kislyak.)

Between August and October last years there was a sudden deterioration of the relationship between Russia, the West in general and the US in particular, when the Democratic Party National Committee was hacked by the Russians, the deploy of Iskander-M missils in Kaliningrad and many diplomatic divergences regarding Syrian Civil War. After the US elections, on November 8th, the level of tension dropped down. The news I´ve followed in the internet and comments from political analysts pointed to a rapprochment between then-elected President Donald Trump and his colleague Vladimir Putin, some of his advisers to the Kremlin and a possible Russian interference in the electoral process.

The hypothesis I raised was that, failing to secure Trump´s victory (above all the Hillary´s defeat, widely demonized by the Russian elite), Russia bet on an escalation in military tension to frighten US public opinion aiming to influence decisively the elections. This attitude can be summarized by the statment of Vladimir Zhirinovsky, Kremlin´s ally and leader of the Liberal Democratic Party of Russia (LDPR), known for his agressive nationalism and extremist positions, that if Americans voted to Hillary, "it´s war. There will be Hiroshimas and Nagasakys everywhere."

(Vladimir Zhirinovsky celebrating with his colleagues the Trump´s victory, November 9th, 2016) 

For the Kremlin´s joy Trump won, Zhirinovsky celebrated the victory cheering with a toast of sparkling wine with his co-workers and Duma effusivelly applauded when the elections final result was announced.

An example of the tension decrease was the Kremlin´s reaction to the expulsion of 35 Russian diplomats from the US and the requirement to return two complex they used in the states of Maryland and New York. The order was given on December 29, 2016 by then-President Obama, and both mesures should be enforced within two days. Washington also extended executive powers to impose sactions on agents who attack the US institutions. By this way, Obama enlarged the already imposed sanctions on Moscow encompassing the Federal Security Service (FSB), the Main Directorate of Intelligence (GRU) under direct Putin´s authority, four GRU´s members and three companies that provide materials to this intelligence service. An American cybersecurity analyst has defined this Washington´s action as "the biggest retaliatory move against Russian espionage since the Cold War".

The Kremlin was expected to respond in the same way or even exaggeratadly, such as the responses to the US political sanctions it has suffered in recent years. Putin, however, didn´t react this way. He officialy stated that "we [Russia] will not resort to irresponsable 'kitchen' diplomacy but will plun our further steps to restore Russian-US relations based on policies of the Trump Administration", in addition refusing to take mesures againts US diplomats´ families and wishing to Obama and Trump New Year congratulations. That is: Putin simply didn´t respond to the Obama´s action, depriving it of it´s political pourpose. Through Twitter, Trump praised the Russian colleague´s wait and reiterated the appreciation for his intelligence. As for interest in reducing tensions, there was a clear tuning between Putin and Trump.

A few weeks after Trump´s inauguration on January 20th, the tuning between both the presidents was already suffering interferences. As I commented in this blog in last March, Trump appointed James Mattis, strong NATO supporter, as Secretary of Defense, and at the UN explicitly condemned the annexation of the Crimea by Russia, that was initial cause of the economic sanctions that Washington and the EU imposed on Moscow. This conviction came on February 3rd, just the 14th day of the Trump´s presidency, that still waits for the return of the Crimea to Ukraine and an effective action by Russia to curbe the violence in this country. Because of these attitudes, the White House has shown to recognize Russia as the conflict´s cause in Ukraine. (It should also be noted that on April 11th Trump officialy approved the entry of Montenegro as the 29th member of NATO, countering the Russians in a region sensible to their interests.)

(Beach in the Seychelles Islands: discreet venue for a secret meeting between the Emirates government, a Trump´s financier and a Putin´s associate. Questions to be answered.)

On the other hand, the Trump government began rehearsing a rapprochement with Moscow. US, European and Arab officials have reported the existence of secret US-Russia negotiations for this purpose. According to a lenghty Washington Post report, the United Arab Emirates government has organized a meeting between the founder of security firm Blackwater and financier of Trump´s campaing, Erik Prince, and a Putin´s close associate. The meeting would aim to establish a channel for dialogue between Washington and Moscow behind official contact mechanisms and would have occcured around January 11th in Seychelles Islands, a small country in the Indian Ocean where a member of the Emirates government had a private island. The negotiations agenda would involve reviw Russian alliances in Middle East in exchange of a possible easing on economic sanctions. For the Emirates, the interest would be to cut off Russian support to Iran and Syria, regional rivals of the Persian Gulf monarchy.

(US surprise attack on Syria on April 7th: changes in Trump´s political team may be one of the reasons of the attack.)

The cooling in rapprochment came in Syria. Trump authorized the surprise military attack on the Shayrat air base in the early hours of April 7th in response to the chemichal attack likely carried out by the Assad regime on day 4 to the northwestern town of Khan Shailkhun. Among many other developments, one of them was the following disegangement between Washington and Moscow, that accused the US of attacking a "soverign country". The Kremlin suspended the direct line of communication (besides conflicting information among US officials) between American and Russian armies that allowed the informations exchange on the aircrafts to avoid conflicts and unintetional attacks between both. It also promised to strengthen Syria´s aerial defense system and to protect the country´s infrastructure. This last point isn´t new, given that on December 28, 2016 a Israeli high-resolution sattelite caught two Russian army´s vehicles at the Latakia military base, on the coast of the country, used to move Iskander-M missils, the ones mentioned in the beggining of this text and capable of carrying nuclear warheads. The images confirmed a suspicion already in existence, which shows that such missils has been in the place for some time, and that Syria, regardless of the recent crisis with the US, is of utmost strategic importance to Russia.

(Tillerson with Putin in the Kremlin: despite the crisis in Syria and little progress in diplomacy, the historic meetings between both helped to break the ice.)

Despite Russia´s strong complaint, the US Secretary of State, Rex Tillerson, was in Moscow a week after the American attack. At the last minute, Tillerson met with Putin for two hours after a talk to his colleague Sergey Lavrov. According to witnesses, the meeting with Putin revelaed an old intimacy between the two, known from various meetings in the past, and disassociated from the tense atmosphere of the visit. While Russia said there was no proof that the chemical attack was carried out by the Assad´s regime, the US was saying the opposite. For Trump it was "likely" that the Kremlin would know that Assad was planning the chemical attack, while Tillerson said diplomatically that still there was no clear evidence of this. On both sides there was a consensus that the relationship between the two countries has worsened greatly. For Lavroy the US foreign policy was "contradictory" and difficult to understand, and one reason for this would be the fact that Tillerson hasn´t yet filed all vacancies on the State Department. These positions show more insecurity than a real worsing, since there was signs of cooperation, among them the reestablishment of the direct line of communication on the US and Russian aircrafts that fly over Syria and the fight against terrorist organizations. The crisis in Ukraine and the Russian hacking in the American elections were to be discussed in another occasion. There are, however, a number of issues that have not yet been clarified in the Russia-US relations.

Domestic politics may also have weight in the attack on Syria. For Putin an external crisis helps to cultivate his figure of strong man to the Russian people, for Trump there´s vantage that, in opposing the Russian interests in Syria with the attack, he distances himself from the accusation that people of his inner circle would have links with the Kremlin, as well diverting public´s attention from the investigations in the issue.


(Trump and his advisors watching the attack on Syria live: next to the table is Jarde Kusher, the second from right to left; in the background in front of the chandelier Steve Bannon. Suggestive picture.)

Finally, we arrived at a crucial point: Steve Bannon´s loss of influence in political decisions of the White House. Bannon was Chief Strategist of the Trump´s campaign and is the current Chief Strategist of the presidency and his Senior Conselor. Since the beggining of the current mandate, the evolution of the president´s advisory groups has diminished the Bannon´s influence on political decisions. The most explicit case was the disagreement between him and Trump´s son in law and senior adviser, Jared Kusher, on the decision to attack Syria in response to the chemical attack on April 4th. For Bannon it wasn´t of the US interest to carry on the attack, whereas Kusher wanted a punishement to Assad. The divergence between them would correspond to an ideological split among the White House aides: on one hand the "nationalist" groups determined to prioritize the US national interest proposed by the Trump´s campaing and on the other the "democrat" group with some members of the Democratic Party that, por it´s tradition, has an internationalist inclination.

(Steve Bannon listening Trump: strategist and adviser linked to Eurasianism.)

The nationalism of Bannon is related to Eurasianism, current of though whose main promoter is Alexander Dugin, with whom the American shares many of the values. Both see themselves as nationalists, tradition defenders and have aprecciation for theories of history and study of civilizations linking these subjects to political, economic and moral issues. His sympathy for Eurasianism and Putin was clear in the conference that Bannon attended in the Vatican in 2014. People close to Bannon translated into English the main Dugin´s book, The Fourth Political Theory, that set forth the basis of his though, a reformed Eurasianism known as Neo-Eurasianism. For Dugin Bannon is an ideological ally. This helps to explains the enthusiastic support that the Russian gave to the Trump´s election still in the Republican primaries, when Bannon was his chief strategist. Despite Trump to be "tough, rude, (...) emotional", said Dugin, he´s an "extremely successful ordinary American", "it is the true America". The Russian ideologist called Americans to vote to Trump, since he would get back to the US domestic problems and would leave mankind alone, "tired of American hegemony and it´s destructive policy".

With Trump´s inauguration, however, Dugin was disappointed with some of his policies, such as the Washington´s decision to demand that Russia give Crimea back to Ukraine, but definitely gave up with the US attack on Syria. For him, Bannon was the "last hope" in Washington, but given the Trump´s action, whom he called "mad neo-con", hopes for and alliance between Americans and Russians disappeared.

(Military officer Michael Flynn at Russia Today´s gala dinner in 2015: sitting alongside to Vladimir Putin and surrounded by Kremlin´s members.)

It´s clear the association between the Bannon´s loss of power in the White House, the attack on Syria and the crisis with Russia. It´s clear, but no fully explained, since other elements not ananlyzed in this text, such as the departure of ancient members of the Trump´s campaing and government, such as Paul Manafort and Michael Flynn, were also factors that indirectly contributed to disturb a rapprochement with Moscow. Manafort was Viktor Yanukovich´s strategist, a Kremlin´s ally, in the presidencial campaign of 2010 for president of Ukraine. Flynn, a former US Army general, has more obvious ties: he has personal contacts with the Kremlin, having attended the 10-year anniversary gala dinner of the state television Russia Today, whose chief editor, Margarita Symonian, is an enthusiastic supporter of the Russian president. Putin was present alongside the military officer. Flynn appears regularly on the channel conducting reviews on international politics.

(Lavrov and Kislyak being received by Trump in the Oval Office of the White House: despite tensions, contacts on high level continue.)

Despite the political turmoil between Washington and Moscow, there are some signs of willingness (or opportunism) from both sides to reestablish closeness shaken by the attack on Syria. In addition to the aforementioned meeting between Tillerson and Putin in the Kremlin, Trump received in the White House the Russian minister Lavrov and the country´s ambassador in Washington Sergei Kislyak. Kislyak is key figure in the political crisis of the Trump government by his contacts with Flynn still in the US electoral campaign. According to an American newspaper, in the meeting the president would have disclosed confidential information from the secret services to the Russians. Despite complaints from US politicians, the White House National Security Advisor has called the information "false", and the newspaper´s sources aren´t mentioned in the report. Anyway, the Trump´s reception for Lavrov and Kislyak shows there´s an attempt from both sides to normalize the Washington-Moscow relationship regardless the intentions at stake.

Given the above reports, it´s possible to perceive that the great political and military tension between Russia and the Western countries in the second half of 2016 had as one of it´s targets to influence the US elections. It´s difficult to mesure how much the Russians are capable and how much they actually did to interfere in the election, as this interference is under FBI investigation and the USA is a country of continental dimensions. Although American media to be strongly concentrated in a few corporations, people still have a huge variety of media. Therefore, the hypothesis that the Russians have used military pressure as means of influencing the US public opinion is plausible. In uncertanty of domestic efficacy, the explicit external threat was used.

(Pro-Trump propaganda in Russia during US elections: "Let´s make the world great again - together!", says the annoucement. In it´s innability of determining the US course, Russia seeks to play with as many cards as possible to overthrow the American global leadership.) 

The joy by Duma with Trump´s victory, the explicit gesture by Putin to not react to the expulsion of 35 Russian diplomats by Obama (seen by the Kremlin as one more provocation by this government) and the massive support of Russian media to the Republican are public signals that there was interest of Moscow in Trump´s victory. For Russia it was also important to avoid as worsening of relations given country´s difficulty in simultaneously mantaining a military escalation throughout it´s Western portion and a direct involvement in the wars in Syria and Ukraine in a time of economic crisis.

The shuddering of tuning between Trump and Putin began with a series of Washington´s mesures that were against Moscow, such as mantaining the sanctions linked to the annexation of the Crimea, condenming of the Russian action in Ukraine, reaffirming of compromisse with NATO and it´s expansion, and the domestic political struggle. The Trump government has members that were influenced by ideological sources sympathetic to Russia, like Bannon, and people with sympathies and/or the means of approaching both sides, like Flynn. Add to this the Russian influence in US electoral process, destabilizatin factor of the government. Trump has a plenty of reasons not to show his willingness of approaching to the Russians and cover up members ideologically sympathetic to Russia: this avoids attack from opponents and the media (the later has been a harsh critic of the Republican since primaries). So far, however, there was no public desagreement between Washington and Moscow. Or, in Dugin´s words, Trump was still tolerable. Untill the attack on Syria.

Contrary to Dugin´s wishes, Tillerson´s recent meetings with Putin in the Kremlin and Lavrov´s with Trump in the White House show that, despite the crisis in the relationship, Washington and Moscow remain willing to hold talks at the high level. In the same way there´s an attempt to create a deeper and more discret link, such as the meeting held in Seychelles Island, so that the contact is mantained ar at least informally. Two things, however, need to be taken into account: first, that the Kremlin is always a source of uncertainty for a variety of reasons, since the lack of political transparency to the Executive´s relationship with the secret service, and the Trump government, led by a noob in politics, is still seeking to stabilize amid turbulences and domestic adjustments; second, that Russia, following it´s messianic and revolutionary "tradition" of which the present government is heir, is willing to continue the struggle to expand it´s influence throughout the world and subdue the post-Cold War world system. And for this it will have to subdue the USA.

There are also many other elements that would help to complete and improve this text. I could also do other ramifications and deepenings by questioning: a) what happened at the Seychelles meeting and it´s possible consequences (and to what extend the Washington Post report is true); b) the real reason of the attack on Syria; c) the Flynn´s role in Trump government and the possibility of he being a communication channel with the Kremlin; d) possible contacts of the Attorney General Jess Sessions with the Russians during US election (not commented in this text); e) the means and impacts of the Russian trolls a propaganda in the USA; d) the American media´s role, largely critical of Trump, and that possibly exaggerates Russia´s power in Washington and; g) the reasons and consequences of the recent dismissal of FBI Director James Comey, who was responsable for investigating the potential commitment of the Trump government with Russia.

Russia´s actions fit in a global strategy to undermine democracy and liberalism in the West. There are a plenty of reasons to suppose that the Kremlin will continue to do so. But the next steps of the US-Russian relationship are still unpredictable.

* Published in Portuguese on May 21st, 2017.

domingo, 21 de maio de 2017

A tentativa da Rússia de influenciar os rumos dos EUA


(Michael Flynn, Donald Trump, Jeff Sessions, Vladimir Putin e Sergei Kislyak.)

Entre agosto e outubro do ano passado houve uma súbita deterioração das relações entre a Rússia, o Ocidente em geral e os EUA em particular, período em que houve o hackeamento do Comitê Nacional do Partido Democrata pelos russos, a instalação de mísseis Iskander-M em Kalingrado e várias divergências diplomáticas a respeito da Guerra Civil na Síria. Após as eleições americanas, em 8 de novembro, o nível de tensão baixou. O noticiário que acompanhei pela internet e os comentários de analistas políticos apontavam para uma aproximação entre o então presidente eleito, Donald Trump com seu colega Vladimir Putin, de alguns de seus assessores com o Kremlin e uma possível interferência russas no processo eleitoral.

A hipótese que levantei foi de que, não podendo garantir a vitória de Trump (acima de tudo a derrota de Hillary, amplamente demonizada pela elite russa), a Rússia apostou numa escalada na tensão militar para amedrontar a opinião pública americana com o objetivo de influenciar decisivamente as eleições americanas. Esta atitude pode ser resumida pela declaração de Vladimir Zhirinovsky, aliado do Kremlin e líder do Partido Democrático Liberal da Rússia (LDPR, em inglês) conhecido por seu agressivo nacionalismo e posições extremistas, de que caso os americanos votassem em Hillary, "é guerra. Haverá Hiroshimas e Nagasakys por todo o lugar".

(Vladimir Zhirinovsky comemorando com seus colegas de trabalho a vitória de Trump, 9 de novembro de 2016) 

Para alegria do Kremlin Trump venceu, Zhirinovsky celebrou a vitória com um brinde de vinhos espumantes com seus colegas de trabalho e a Duma aplaudiu efusivamente quando o resultado final das eleições foi anunciado. 

Um exemplo da diminuição da tensão foi a reação do Kremlin à expulsão de 35 diplomatas russos dos EUA e à exigência da devolução de dois complexos por eles utilizados nos estados de Maryland em Nova Iorque. A ordem foi dada em 29 de dezembro de 2016 pelo então presidente Obama, e ambas medidas deveriam ser cumpridas em até dois dias. Washington também ampliou os poderes do Executivo para aplicar sanções contra agentes que atacassem instituições americanas. Desta forma, Obama ampliou as sanções já impostas sobre Moscou abrangendo o Serviço Federal de Segurança (FSB), o Diretório Principal de Inteligência (GRU) sob autoridade direta de Putin, quatro membros do GRU e três empresas que forneceiam materiais a este serviço de inteligência. Um analista americano de cibersegurança definiu a retaliação de Washington como "a maior contra a espionagem russa desde a Guerra Fria".

A expectativa era de que o Kremlin respondesse na mesma moeda ou mesmo de forma exagerada, a exemplo das repostas às sanções políticas que sofreu nos últimos anos por parte dos EUA. Putin, porém, não reagiu desta forma. Ele declarou oficialmente que "nós [a Rússia] não vamos recorrer a uma diplomacia 'de cozinha' mas planejaremos nossos próximos passos para restaurar as relações EUA-Rússia baseados nas políticas da Administração Trump", além de se recusar a tomar medidas contra os familiares dos diplomatas americanos, e desejou a Obama e Trump felicitações de Ano Novo. Ou seja: Putin simplesmente não respondeu à ação de Obama, esvaziando-a de seu propósito político. Através do Twitter, Trump elogiou a espera do colega russo e reiterou o apreço por sua inteligência. No que diz respeito ao interesse de diminuir as tensões, havia uma clara sintonia entre Putin e Trump.

Poucas semanas após a posse de Trump em 20 de janeiro, a sintonia entre os dois presidentes já começava a sofrer interferências. Como comentei neste blog em março passado, Trump nomeou James Mattis, firme apoiador da OTAN, como Secretário de Defesa, e junto à ONU condenou explicitamente a anexação da Crimeia pela Rússia, ação que foi causa inicial das sanções econômicas que Washington e a União Europeia impuseram à Moscou. Esta condenação veio em 3 de fevereiro, recém o 14º dia da presidência Trump, que ainda hoje espera o retorno da Crimeia à Ucrânia e uma ação efetiva da Rússia na contenção da violência neste país. Por estas atitudes, a Casa Branca demonstrou reconhecer a Rússia como causa do conflito na Ucrânia. (Cabe ainda destacar que em 11 de abril Trump aprovou oficialmente a entrada de Montenegro como o 29º membro da OTAN, contrariando os russos numa  região sensível aos seus interesses.)

(Praia nas Ilhas Seychelles: local discreto para uma reunião secreta entre o governo dos Emirados, um financiador de Trump e um associado de Putin. Perguntas a serem respondidas.)

Por outro lado, o governo Trump começou a ensaiar uma aproximação com Moscou. Funcionários americanos, europeus e árabes relataram a existência de negociações secretas entre EUA e Rússia com esta finalidade. De acordo com uma longa reportagem do Washington Post, o governo dos Emirados Árabes Unidos organizou um encontro entre o fundador da firma de segurança Blackwater e financiador da campanha de Trump, Erik Prince, e um associado próximo de Putin. O encontro teria como o objetivo estabelecer um canal de diálogo entre Washington e Moscou por detrás dos mecanismos oficias de contato e teria ocorrido em torno de 11 de janeiro nas Ilhas Seychelles, pequeno país no Oceano Índico onde um membro do governo dos Emirados possuía uma ilha particular. A pauta de negociações envolveria a revisão das alianças russas no Oriente Médio em troca de um possível alívio nas sanções econômicas. Para os Emirados, o interesse seria cortar o apoio russo ao Irã e à Síria, rivais regional da monarquia do Golfo Pérsico.

(Ataque surpresa dos EUA à Síria em 7 de abril: mudanças no grupo político de Trump pode ser uma das razões do ataque.)

O banho de água fria na aproximação veio na Síria. Trump autorizou o surpreendente ataque militar à base aérea de Shayrat na madrugada de 7 de abril em resposta ao ataque a químico provavelmente realizado pelo regime de Assad no dia 4 à cidade de Khan Shaikhun, no noroeste no país. Dentre muitos outros desdobramentos, um deles foi o distanciamento que se seguiu entre Washington e Moscou, que acusou os EUA de atacar um "país soberano". O Kremlin suspendeu a linha de comunicação direta (apesar de informações desencontradas entre militares americanos) entre os exércitos americano e russo que permitia troca de informações sobre as aeronaves que sobrevoavam a Síria para evitar conflitos e ataques não intencionais entre ambos. Também prometeu reforçar o sistema de defesa aéreo do país e proteger sua infra-estrutura. Este último ponto não é novidade, dado que em 28 de dezembro de 2016 um satélite israelense de alta resolução flagrou dois veículos do exército russo na base militar de Latakia, na costa do país, utilizados para deslocar mísseis Iskander-M, os mesmos citados no início deste texto e capazes de carregar ogivas nucleares. As imagens confirmaram uma suspeita já existente, o que mostra que tais mísseis já estavam no local há mais tempo e que a Síria, independente da recente crise com os EUA, é de suma importância estratégica à Rússia.

(Tillerson com Putin no Kremlin: apesar da crise na Síria e da pouca evolução na diplomacia, o histórico de encontros entre os dois ajudou a quebrar o gelo.)

Apesar da forte reclamação da Rússia, o Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, esteve em Moscou uma semana depois do ataque americano. De última hora, Tillerson se encontrou com Putin durante duas horas após conversa com seu colega Sergei Lavrov. Segundo testemunhas, o encontro com Putin revelava a antiga intimidade entre os dois, conhecidos de diversos encontros no passado, e destoou do clima de tensão da visita. Enquanto a Rússia dizia não haver provas de que o ataque químico fora realizado pelo regime de Assad, os EUA dizia o contrário. Para Trump era "provável" que o Kremlin soubesse que Assad estava planeando o ataque químico, ao passo que Tillerson dizia diplomaticamente ainda não haver evidência clara disto. Em ambos os lados havia um consenso de que a relação entre os dois países havia piorado muito.  Para Lavrov a política externa americana era "contraditória" e de difícil compreensão, e uma das razões desta dúvida estaria no fato de Tillerson ainda não ter preenchido todas as vagas do Departamento de Estado. Estas posições mostravam mais insegurança do que uma real piora já que houve sinais de cooperação, entre elas o reestabelecimento da linha de comunicação direta sobre os aviões russos e americanos que sobrevoavam a Síria e o combate às organizações terroristas. A crise na Ucrânia e o hackeamento russo nas eleições americanas ficaram para ser discutidas noutra ocasião. Havia, porém, uma série de questões que ainda não foram esclarecidas nas relações russo-americanas.

A política interna também pode ter peso no ataque à Síria. Para Putin uma crise externa ajuda cultivar junto à população russa sua figura de homem forte; para Trump há a vantagem de, ao contrariar os interesses russos na Síria com o ataque, se distanciar das acusações de que pessoas de seu círculo próximo teriam ligações com o Kremlin, além de desviar a atenção do público das investigações sobre este tema.


(Trump e seus assessores acompanhando o ataque à Síria ao vivo: junto à mesa está Jared Kusher, o segundo da direita para a esquerda; ao fundo em frente ao lustre, Steve Bannon. Imagem sugestiva.)

Por fim, chegamos a um ponto crucial: a perda de influência de Steve Bannon nas decisões políticas da Casa Branca. Bannon foi estrategista chefe da campanha de Trump e é o atual estrategista chefe da presidência e seu principal conselheiro. Desde o início do atual mandato, a evolução dos grupos assessores do presidente tem diminuído a influência Bannon nas decisões políticas. O caso mais explícito foi a divergência entre ele e o genro de Trump e seu assessor principal, Jared Kusher, sobre a decisão de atacar a Síria em resposta ao ataque químico de 4 de abril. Para Bannon não era do interesse americano realizar o ataque, ao passo que Kusher queria uma punição a Assad. A divergência entre os dois corresponderia a uma divisão ideológica entre os assessores de Casa Branca: de um lado o grupo "nacionalista" determinado a priorizar o interesse nacional americano proposto na campanha de Trump e do outro o grupo "democrata" com alguns filiados ao Partido Democrata que, por sua tradição, tem uma inclinação internacionalista.

(Steve Bannon ouvindo Donald Trump: estrategista e assessor ligado ao eurasianismo.)

O nacionalismo de Bannon tem relação com o eurasianismo, corrente de pensamento cujo principal divulgador é Alexander Dugin, com quem o americano compartilha muitos dos valores. Além de uma visão de mundo comum, ambos se vêem como nacionalistas, defensores da tradição e têm apreço pelas teorias da história e o estudo das civilizações vinculando estes temas às questões políticas, econômicas e morais. Sua simpatia pelo eurasianismo e por Putin ficou clara na conferência em que Bannon participou no Vaticano em 2014. Pessoas próximas a Bannon traduziram para o inglês o principal livro de Dugin, The Fourth Political Theory, que expõe as bases do seu pensamento, um eurasianismo reformulado conhecido como neo-eurasianismo. Para Dugin Bannon é um aliado ideológico. Isto ajuda a explicar o entusiasmado apoio que o russo deu à eleição de Trump ainda nas primárias republicanas, época em que Bannon era seu principal estrategista. Apesar de Trump ser "duro, rude, (...) emocional", disse Dugin, ele é um "americano comum extremamente bem-sucedido", é a "verdadeira América". O ideólogo russo clamou para que os americanos votassem em Trump, já que ele voltaria seu olhos aos problemas internos dos EUA e deixaria a humanidade em paz, "cansada da hegemonia americana e de sua política destrutiva".

Com a posse de Trump, porém, Dugin foi se decepcionando com algumas de suas políticas, como a decisão de Washington de exigir que a Rússia devolvesse a Crimeia à Ucrânia, mas jogou definitivamente a toalha com o ataque americano à Síria. Para ele Bannon era a "última esperança" em Washington, mas dada a ação de Trump, a quem chamou de "louco neo-con", as esperanças de um aliança entre americanos e russos desapareceu.

(O militar Michael Flynn no jantar de gala da Russia Today em 2015: sentado ao lado de Vladimir Putin e rodeado por membros do Kremlin.) 

Fica clara a associação entre a perda de poder de Bannon na Casa Branca, o ataque à Síria e a crise com a Rússia. Fica clara, mas não totalmente explicada, dado que outros elementos não analisados neste texto, como a saída de antigos membros da campanha e do governo Trump, como Paul Manafort e Michael Flynn, também foram fatores que contribuíram indiretamente para atrapalhar uma aproximação com Moscou. Manafort foi estrategista de Viktor Yanukovich, um aliado do Kremlin, na campanha presidencial de 2010 para presidente da Ucrânia. Já Flynn, ex-general do exército americano, tem laços mais evidentes: possui contatos pessoais com o Kremlin, tendo participado do jantar de gala do aniversário do 10 anos da rede de TV estatal Russia Today, cuja editora-chefe, Margarita Symonian, é uma entusiasmada apoiadora do presidente russo. Putin estava presente ao lado do militar. Flynn aparece regularmente no canal realizando análises sobre política internacional.

(Lavrov e Kislyak sendo recebidos por Trump no Salão Oval da Casa Branca: apesar das tensões, continuam os contatos no alto escalão.)

Apesar do terremoto político entre Washington e Moscou, há alguns sinais de boa vontade (ou de oportunismo) de ambos os lados para reestabelecer a proximidade abalada com o ataque à Síria. Além do mencionado encontro entre Tillerson e Putin no Kremlin, Trump recebeu na Casa Branca o ministro russo Lavrov e o embaixador do país em Washington, Sergei Kislyak. Kislyak é figura-chave na crise política do governo Trump por seus contatos com Flynn ainda na campanha eleitoral americana. Segundo um jornal americano, no encontro o presidente teria divulgado informações confidenciais do serviço secreto para os russos. Apesar das reclamações de políticos americanos, o assessor de segurança nacional da Casa Branca anunciou como "falsa" a informação, e as fontes do jornal não são mencionadas na reportagem. De qualquer forma, a recepção de Lavrov e Kislyak por Trump mostra que há uma tentativa de ambos os lados de normalizar a relação Washington-Moscou independente das intenções em jogo.

Dados os relatos acima, é possível perceber que a grande tensão política e militar entre a Rússia e os países do Ocidente na segunda metade de 2016 tinha como um dos objetivos influenciar as eleições americanas.  É difícil mensurar o quanto os russos são capazes e o quanto realmente fizeram para interferir no pleito, dado que esta interferência está sob investigação do FBI e que os EUA são um país de dimensões continentais. Apesar da mídia americana ser fortemente concentrada em poucas corporações, a população ainda possue uma enorme variedade de meios de informação. Portanto, a hipótese de que os russos utilizaram a pressão militar como meio de influenciar a opinião pública americana é plausível. Na incerteza da eficácia interna, usou-se a explícita ameaça externa.

(Propaganda pró-Trump na Rússia durante a eleição americana: "Vamos fazer o mundo grande outra vez - juntos!", diz o anúncio. Na incapacidade de determinar os rumos dos EUA, a Rússia busca jogar com todas as cartas possíveis para destronar a liderança global americana.)

O regozijo da Duma com a vitória de Trump, o gesto explícito por parte de Putin de não reagir à expulsão de 35 diplomatas russos por Obama (visto no Kremlin como mais uma provocação deste governo) e o apoio maciço da mídia russa ao republicano são sinais públicos de que havia interesse de Moscou na vitória de Trump. Para a Rússia também era importante evitar uma piora nas relações dada a dificuldade do país em manter de forma simultânea uma escalada militar em toda a sua porção ocidental e um envolvimento direto nas guerras da Síria e da Ucrânia numa época de crise econômica.

O estremecimento da sintonia entre Trump e Putin começou com uma série de medidas de Washington que contrariava Moscou, como o mantimento das sanções vinculadas à anexação da Crimeia, a condenação da ação russa na Ucrânia, a reafirmação do compromisso com a OTAN e sua expansão e a luta política interna. O governo Trump possui membros que beberam de fontes ideológicas simpáticas à Rússia, a exemplo de Bannon, e pessoas com simpatias e/ou meios de aproximar os dois lados, a exemplo de Flynn. Soma-se a isto a influência russa no processo eleitoral americano, fator de desestabilização do governo. Trump tem razões de sobra para não transparecer sua disposição de se aproximar dos russos e encobrir membros ideologicamente simpáticos à Rússia: isto evita ataque de adversários e da imprensa (esta última tem sido desde as primárias eleitorais uma dura crítica do republicano). Até aí, porém, não havia uma divergência pública entre Washington e Moscou. Ou, nas palavras de Dugin, Trump ainda era tolerável. Até o ataque à Síria.

Ao contrário do desejo de Dugin, os recentes encontros de Tillerson com Putin no Kremlin e de Lavrov com Trump na Casa Branca mostram que, apesar da crise na relação, Washington e Moscou continuam dispostos a manter conversações no alto escalão. Da mesma forma há uma tentativa de criar um vínculo mais profundo e discreto, como no encontro realizado nas Ilhas Seychelles, para que o contato se mantenha ao menos informalmente. Duas coisas, porém, precisam ser levadas em consideração: primeiro que o Kremlin sempre é motivo de incerteza por diversas razões, desde a falta de transparência política até a relação do Executivo com o serviço secreto, e o governo Trump, liderado por um novato na política, ainda procura estabilizar-se em meio às turbulências e ajustes domésticos; segundo que a Rússia, seguindo sua "tradição" messiânica e revolucionária do qual o atual governo é herdeiro, está disposta a continuar a luta para expandir sua influência pela mundo e subjugar o sistema mundial pós-Guerra Fria. E para isso terá de subjugar os EUA.

Há ainda muitos outros elementos que ajudariam a completar e aperfeiçoar este texto. Poderia ainda fazer outras ramificações e aprofundamentos questionando: a) o que ocorreu no encontro de Sychelles e suas possíveis consequências (e até que ponto os dados da reportagem do Washington Post são verdadeiras); b) as verdadeiras razões do ataque à Síria; c) o papel de Flynn no governo Trump e a possibilidade dele ser um canal de comunicação com o Kremlin; d) os possíveis contatos do Procurador Geral Jeff Sessions com os russos durante a eleição americana (não comentado neste texto); e) os meios e os impactos de trolls e da propaganda russa nos EUA; f) o papel da mídia americana, largamente crítica de Trump, e que possivelmente exagera o poder da Rússia em Washington e; g) as razões e consequências da recente demissão do diretor do FBI, James Comey, responsável pelas investigações envolvendo o potencial comprometimento do governo Trump e com a Rússia.

As ações da Rússia inserem-se numa estratégia global para minar a democracia e o liberalismo no Ocidente. Há razões de sobra para supor que o Kremlin continuará a agir com este objetivo. Mas os próximos passos da relação EUA-Rússia ainda são imprevisíveis.    

sexta-feira, 24 de março de 2017

Trump on Ukraine: did he know what really was talking about?

(Then-candidate Trump in an interview to Stephanopoulos, in July 2016.)

In an interview conducted by the journalist of the ABC American network, George Stephanopoulos, then-presidential candidate to the US presidency, Donald Trump, was confronted to answer about his possible personal relationship with Vladimir Putin and how he intended to react to the annexation of Crimea by Russia and to the following crisis. The interview was held in July 2016 and caused much controversy mainly over Trump´s responses on Ukraine.

In the book Who Lost Russia? How the World Entered a New Cold War, by British journalist and internation editor of The Sunday Times, Peter Conradi, there´s one paragraph where the author sums up the Trump´s responses on the issue:

"Doubts about Trump were fulled by a curious television interview in July 2016 in which Trump declared of Putin: 'He´s not going into Ukraine, OK, just so you understand. He´s not going to go into Ukraine, all right?' Asked by ABC´s George Stephanopoulos if the realised Putin as 'there already', Trmup retorted, 'OK - well, he´s there in a certain way.' More significant was Trump´s vow to 'take a look' ate recognising Russia´s seizure of Crimea. 'You know, the people of Crime, from what I´ve heard, would rather be with Russia then where they were,' he said. Trump attempted to clarify his position on the conflict between Ukraine and Russia in a series of tweets the following morning, after he was criticised fo his muddled response, but did not retract his thoughts about Crimea." (p. 316-317)  

Watching the interview in full and paying attention to the passage where he approaches the subject discussed here (between 6:01 and 7:23 in the video), it´s possible to perceive that Trump isn´t clear and is relatively insecure in giving quick responses on Ukraine. After stating clearly that Putin wasn´t penetrating into the neighbouring country and being directly questioned by Stephanopoulos that, yes, he was going into there, Trump answered, unconvincingly, that the Russian president was there "in some way", denoting not knowing the issue or avoiding a verbal confrontation with Putin and his campaign proposals. The Russian presence in Ukraine is widely recognized by the academy in the West, as i´ve already commented in this blog and as shown in recent disclosure of phone calls between a Kremlin advisor and political allies in Ukrinae, as well as Conradi himself.

 (Trump trying to clraify his declarations in the interview. His explanations didn´t convince critics.)

In saying he would "take a look" at the recognition of the annexation of Crimea, Trump was vague on the issue. At the time he´d been confronted by Stephanopoulos, who recalled his position on a possible recongnition of Crimea as part of Russia. "Take a look" and state according to other people that the peninsula´s population would rather be with Russia than Ukraine denotes possible lack of knowledge about the details and the real implications of the problem. The annexation of Crimea involves international law, a challenge to the post-Second War world order and also the public peninsula´s public opinion, mostly inhabitated by ethnic Russians and historically pro-Russia. Althoug Trump recognizes the existence of a pro-Russia public opinion, the equation isn´t simple, given that the referendum hold on March 16th 2014 and that officialized the annexation of the region occured under military occupation, putting in check it´s legitimation and setting a precedent for further such interventions.


(Sergei Lavrov and then-Obama´s Secretary of State, Hillary Clinton, at a meeting in Geneva on March 6th 2009 aiming to renew relations between Moscow and Washington. The button should have the word "reset" written on the box in English and Russian. The Russian translation, however, was wrong: it was written "overload" instead of "reset", a harbinger of what was to come.)

Conradi recalls in his book that the Obama´s reset with Russia from March 2009 aiming to improve relations between both countries was a disaster, and that the Washington´s atitude of not directly confronting Russia in international crisis as in Ukraine and Syria encouraged Moscow to move forward with it´s project of restoring the superpower status, mainly in Putin´s third term (2012-2018). Trump was clear and straightforward in criticizing Obama and the "mess" that Ukraine became (term used by him in the interview) during his presidency, even with NATO at his disposal.

Trump was also asked why he softened the Republican Party´s official policy on Ukraine, reffering to the discussion on aid to the country with letal weapons in the war against pro-Russian separatists. The candidate retorted several times that he "wasnt´s involved" in this decision and that only knew this softening. His promisse was to "take a look" in it´s content. The issue came to light recently when one of the Republican National Convention members said Trump was in the event and that would have asked the party not to play the US in a "Third World War" in a dispute over Ukraine. This softening would also be a way for aligning the party with the candidate´s proposal to ease tensions with Russia.


(Peter Conradi´s book: if post-USSR Russia should be treated as a defeated power or a partner on equal footing, the persistence of the Cold War mentality, expansion of NATO, Putin´s paranoia on "Colored Revolutions" and the West´s lack of firmness in front of Moscow´s attacks occured due what the author called "fundamental misunderstandings" from both sides resulting in the current situation. Difficult picture for Donald Trump.) 


This interview helps to explaing criticism and concerns with Trump since he was a possible White House´s dweller at the time, and that the relations with Russia already was (and still are) among the priorities of the US government. His remarks on Ukraine point for two issues: a relative lack of awareness of the crisis in this country and the intention to avoid incisive criticism on Putin in order to avoid tensions with Russia and not get in contradiction with his campaign proposes. Despite uncertainties of what he´d do in the presidency, Trump gave clear signals of commitment to NATO and support to Ukraine with appointment of James Mattis as Defense Secretary, firm supporter of the organization, and the explicit condemnation of the annexation of Crimea at the UN. As for the sanctions on Russia, they were renewed on February 2nd, but it´s future is still debateble given the little relief of the sanctions by the US Tresury and possible strategies that Trump could adopt to ease tensions with Moscow.

The Trump government is just at the beggining and it´s still early to say how it will deal with Russia in the long term and how Ukraine will fit into this equation.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Trump sobre a Ucrânia: ele sabia o que realmente estava dizendo?

(O então candidato Trump na entrevista com Stephanopoulos, em julho de 2016.)

Numa entrevista realizada pelo jornalista da rede americana ABC, George Stephanopoulos, o então candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, foi confrontado a responder sobre sua possível relação pessoal com Vladimir Putin e como pretendia reagir à anexação da Crimeia pela Rússia e à crise que se seguiu. A entrevista foi realizada em julho de 2016 e causou muita controvérsia principalmente sobre as respostas de Trump sobre a Ucrânia.

No livro Who Lost Russia? How the World Entered a New Cold War, do jornalista britânico e editor internacional do The Sunday Times, Peter Conradi, há um parágrafo onde o autor resume as repostas de Trump sobre o tema:

"Dúvidas sobre Trump foram alimentadas por uma curiosa entrevista na televisão em julho de 2016 em que Trump declarou sobre Putin: 'Ele não está entrando na Ucrânia, ok, só para você entender. Ele não está entrando na Ucrânia, tudo bem?' Questionado por George Stephanopoulos se ele percebia que Putin 'já estava lá', Trump respondeu, 'Ok - bem, ele está lá de alguma forma.' Mais significativa foi a promessa de Trump de 'dar uma olhada' sobre o reconhecimento da tomada da Crimeia pela Rússia. 'Sabe, o povo da Crimeia, pelo o que eu tenho ouvido, gostaria mais de estar com a Rússia do que onde eles estavam', disse. Trump tentou esclarecer sua posição sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia numa série de tweets na manhã seguinte, depois que ele foi criticado por sua resposta confusa, mas não voltou atrás na suas ideias sobre a Crimeia." (p. 316-317, tradução livre)

Observando a entrevista na íntegra e prestando atenção no trecho em que ele aborda o tema aqui discutido (entre 6:01 e 7:23 do vídeo), é possível perceber que Trump não é claro e mostra-se relativamente inseguro ao dar respostas rápidas sobre a Ucrânia. Depois de dizer claramente que Putin não estava penetrando no país vizinho e ser questionado diretamente por Stephanopoulos que, sim, ele estava entrando lá, Trump respondeu, de forma pouco convincente, que o presidente russo estava lá "de alguma forma", denotando não saber da questão ou evitar um confronto verbal com Putin e suas propostas de campanha. A presença russa na Ucrânia é amplamente reconhecida pela academia no Ocidente, como já comentei neste blog e como mostra a recente divulgação de telefonemas entre um assessor do Kremlin e aliados políticos na Ucrânia, além do próprio Conradi.

 (Trump tentando esclarecer suas declarações na entrevista: "Quando eu disse numa entrevista que Putin 'não está entrando na Ucrânia, você pode anotar,' eu estou dizendo se eu fosse presidente. [Putin] já está na Crimeia!" Sua explicação não convenceu os críticos.)

Ao dizer que iria "dar uma olhada" sobre o reconhecimento da anexação da Crimeia, Trump foi vago sobre a questão. No momento ele havia sido confrontado por Stephanopoulos, que lembrou sua posição sobre um possível reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia. "Dar uma olhada" e afirmar por terceiros que a população da península preferiria estar com a Rússia do que com a Ucrânia denota possível falta de conhecimento sobre os detalhes e as reais implicações do problema. A anexação da Crimeia envolve direito internacional, desafio à ordem mundial pós-Segunda Guerra e também a opinião pública da península, majoritariamente habitada por russos étnicos e historicamente pró-Rússia. Apesar de Trump reconhecer a existência de uma opinião pública pró-Rússia, a equação não é simples, dado que o referendo realizado em 16 de março de 2014 e que oficializou a anexação da região ocorreu sob ocupação militar, colocando em cheque a legitimidade do referendo e abrindo um precedente para novas intervenções do tipo.


(Sergei Lavrov e a então Secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, num encontro em Genebra em 6 de março de 2009 com o objetivo de renovar as relações entre Moscou e Washington. O botão deveria ter a palavra "reset" escrita na caixa em inglês e russo. A tradução russa, porém, estava errada: escreveram "sobrecarga" no lugar de "reset", um prenúncio do que estava por vir.)

Conradi lembra no seu livro que o reset do governo Obama com a Rússia a partir de março de 2009 com o objetivo de melhorar as relações entre os dois países foi um desastre, e que a atitude de Washington de não confrontar diretamente a Rússia em crises internacionais como na Ucrânia e na Síria encorajou Moscou a seguir adiante com o projeto de restauração de seu status de superpotência, principalmente a partir do terceiro mandado de Putin (2012-2018). Trump foi claro e direto nas crítica à Obama e na "bagunça" em que se tornou a Ucrânia (termo usado por ele na entrevista) durante sua presidência, mesmo tendo a OTAN à sua disposição.

Trump também foi questionado por quê ele abrandou a política oficial do Partido Republicano sobre a Ucrânia, referindo-se à discussão sobre ajuda ao país com armas letais na guerra contra os separatistas pró-Rússia. O candidato respondendo diversas vezes que "não estava envolvido" nesta decisão e que apenas sabia deste abrandamento. Sua promessa era de "dar uma olhada" no seu conteúdo. A questão voltou à tona recentemente quando um dos membros da Convenção Nacional Republicana afirmou que Trump estava no evento e que teria pedido para que o partido não jogasse os EUA numa "Terceira Guerra Mundial" numa disputa pela Ucrânia. Este abrandamento também seria uma forma de alinhar o partido com a proposta do candidato de diminuir as tensões com a Rússia.


(O livro de Peter Conradi: a dúvida se a Rússia pós-URSS deveria ser tratada como uma potência vencida ou um parceiro em pé de igualdade, a persistência da mentalidade da Guerra Fria, a expansão da OTAN, a paranoia de Putin sobre as "Revolução Coloridas" e a falta de pulso do Ocidente frente às investidas de Moscou ocorreram devido ao que o autor chamou de "incompreensões fundamentais" de ambos os lados, resultando na situação atual.
Quadro difícil para Donald Trump.)

Esta entrevista ajuda a explicar as críticas e preocupações com Trump já que, na época, ele era o possível ocupante da Casa Branca, e que as relações com a Rússia estavam (e ainda estão) entre as prioridades do governo americano. Suas respostas sobre a Ucrânia apontam para duas questões: um relativo desconhecimento da crise neste país e a intenção de evitar críticas incisivas a Putin com o objetivo de evitar tensões com a Rússia e não entrar em contradição com suas propostas de campanha. Apesar das incertezas sobre o que faria na presidência, Trump deu claros sinais de compromisso com a OTAN e de apoio à Ucrânia com a nomeação de James Mattis como secretário de defesa, firme apoiador da organização, e a explícita condenação da anexação da Crimeia na ONU. Quanto às sanções à Rússia, estas foram renovadas em 2 de fevereiro, mas seu futuro ainda é discutível dado o pequeno alívio às sanções pelo Tesouro americano e às possíveis estratégias que Trump poderá adotar para aliviar as tensões com Moscou.

O governo Trump está recém no início e ainda é cedo para afirmar como lidará com a Rússia no longo prazo e como a Ucrânia se encaixará nesta equação.